Cavaleiros do Zodíaco: 6 referências escondidas em Missão Carbúnculo
- Gustavo Rosseb
- 3 de ago.
- 18 min de leitura

Decodificando Missão Carbúnculo #1
Em 2026, Os Cavaleiros do Zodíaco completa 40 anos. Poucas obras marcaram tanto a minha infância quanto essa. Como muita gente da minha geração, cresci acompanhando as aventuras de Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki, e sonhando em vestir uma armadura.

Mas, olhando pra trás, percebo que o maior presente que Masami Kurumada me deu não foram apenas os personagens. Foi me apresentar uma forma de estruturar e contar histórias, que mais tarde se somaria a tantas outras influências na construção da minha escrita.
Enquanto muita gente enxergava apenas um anime violento de luta, eu via uma mistura fascinante de mitologias que funcionava muito bem e me ensinava bastante sobre o mundo. Tinha a mitologia grega como espinha dorsal, mas também passeava pela nórdica, pela romana, pelo budismo, pelo hinduísmo e muito mais. Tudo isso coexistindo no mesmo universo de forma natural.

Talvez seja por isso que eu escreva como escrevo hoje. Quem conhece meus livros sabe que estou sempre misturando mitologias, lendas e tradições populares. Boa parte do meu trabalho tem como foco o folclore brasileiro, mas gosto de buscar referências em mitologias e histórias de outras culturas também.
E, durante muito tempo, tive vontade de trazer essa mesma sensação de Os Cavaleiros do Zodíaco para um livro do universo de As Aventuras de Tibor Lobato.
Quase como uma forma de agradecer aos defensores de Athena por todas as aventuras que vivi ao lado deles. Eu queria recriar aquela sensação de vencer desafio após desafio antes de finalmente encarar o grande vilão. O Big Boss. Nas Doze Casas eram os doze Cavaleiros de Ouro. Em Asgard, os sete Guerreiros Deuses. Em Poseidon, os sete Generais Marinas. Em Hades, os 108 Espectros. Mas eu precisava encontrar, dentro do folclore brasileiro, uma estrutura que justificasse uma jornada como essa. E encontrei.
Em uma das obras de Simões Lopes Neto, considerado um dos principais folcloristas brasileiros, descobri a lenda do Carbúnculo, também conhecido como Teiniaguá. Ao tentar enfrentar o Carbúnculo, antes é preciso vencer os sete desafios que guardam o caminho até ele.

Era a estrutura que que procurava! A oportunidade de criar uma aventura com a mesma sensação que eu experimentava assistindo a Cavaleiros do Zodíaco, porém, num universo genuinamente brasileiro, todinho nosso, povoado por personagens do nosso folclore.
E, em Missão Carbúnculo, coloquei fortes referências a Cavaleiros do Zodíaco escondidas em detalhes que talvez ninguém nunca tenha percebido. Para comemorar os 40 anos dessa obra que continua me inspirando até hoje, resolvi abrir um pouco dos bastidores de Missão Carbúnculo e revelar algumas dessas referências.
Vamos a elas?
***Ao longo do texto, vou deixar algumas sugestões de leitura para quem quiser conhecer melhor as obras citadas.
1. A essência do Cosmo
A homenagem mais evidente está logo no nome de um dos protagonistas.

Cosmo é um boto-cor-de-rosa e recebeu esse nome por causa do cosmo dos Cavaleiros do Zodíaco, aquela energia interior que cada cavaleiro precisava despertar para superar seus próprios limites.
Até hoje, quando estou escrevendo um livro ou um roteiro e chega aquele momento em que parece que a história empacou, que nada vai dar certo ou que talvez eu não consiga terminar, me lembro do Seiya.

O bicho apanhava, caía, levantava, tomava uma surra de novo e levantava mais uma vez. E isso é o mais legal. Cavaleiros nunca foi sobre força. Era sobre acreditar, sobre ter fé em alguma coisa. Se apegar ao fiapinho de luz que ainda resta e tirar força de sei lá da onde, pra conseguir alcançar aquele objetivo.
Pra mim, isso é elevar o cosmo ao máximo. E essa resiliência, essa força de vontade infinita, é parte da personalidade de Cosmo.

Porém a maior inspiração para o personagem não veio do Seiya. Veio do Shun de Andrômeda.
O Shun sempre foi o meu cavaleiro favorito. Enquanto muita gente enxergava sua sensibilidade como sinal de fraqueza, eu via exatamente o contrário. Via alguém que, mesmo no meio de uma guerra, usava sua força como última opção. Ele não abria mão de sua essência para demonstrar o seu poder. Sua empatia vem em primeiro lugar, mesmo que isso lhe custe a vida. E, pra mim, esse é o maior ato de coragem: fazer o certo, mesmo que o mundo lhe diga o contrário.
Foi essa essência que eu quis trazer para o Cosmo. Em Missão Carbúnculo, enquanto Pedro Malasartes tenta resolver tudo pela esperteza, é o Cosmo quem percebe aquilo que ninguém mais percebe. Ele olha para o mundo de forma mais intuitiva, enxerga a poesia e a beleza onde quase ninguém enxerga e é quem consegue desvendar as sete charadas que conduzem a jornada até o Carbúnculo.

Mas Cosmo não é o Shun do folclore brasileiro. Esse boto rosa nasce inspirado por traços da personalidade do Shun e ganha vida própria durante a escrita. Hoje, é um dos personagens de quem mais gosto. Na verdade, eu gostaria de ser como ele. Alguém que acredita que a empatia é a forma mais genuína de coragem. Acho que, se existissem mais pessoas como o Cosmo, o mundo seria um lugar muito melhor.

Por sorte, ainda há a feliz coincidência do boto ser rosa e a armadura do Shun também. Nos anos 1990, um menino que gostasse de rosa quase sempre virava motivo de preconceito e piada. Eu nunca liguei muito pra isso. Talvez porque, pra mim, aquela cor representasse exatamente o contrário: a força de quem não precisava parecer forte para realmente ser.
Existia honra entre os cavaleiros. Existia um senso de dever que, quando eu era criança, ajudou a formar muito do meu entendimento sobre caráter e responsabilidade. Mas, curiosamente, a obra de Kurumada não é a única influência escondida em Cosmo. O seu jeito puro de ser e como ele enxerga o mundo também bebe bastante da fonte dos elfos descritos por Tolkien. E o próprio Carbúnculo deve muito ao Smaug de O Hobbit.
Mas essas são histórias para um próximo "Decodificando". Hoje, a conversa é sobre Os Cavaleiros do Zodíaco.
Algumas referências:

Saint Seiya - Coleção Odisseia do Tempo
Para quem cresceu vendo Cavaleiros na Manchete. Uma homenagem que resgata o espírito da série e respeita as armaduras do mangá.
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Missão Carbúnculo
Uma aventura de fantasia baseada no folclore brasileiro, repleta de mistérios e lendas. Encare os sete desafios até o encontro com o Carbúnculo.
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2. O gigante Makunaima e Aldebaran de Touro
Como dito anteriormente, se existe uma influência de Os Cavaleiros do Zodíaco que moldou profundamente Missão Carbúnculo, ela está na estrutura da história. Durante muito tempo, tive vontade de trazer para o universo de Tibor Lobato aquela mesma sensação de progressão que eu sentia assistindo às grandes sagas de Kurumada.
Nas Doze Casas, os heróis precisavam atravessar os doze Cavaleiros de Ouro antes de enfrentar o grande vilão. Em Asgard, eram os sete Guerreiros Deuses. Em Poseidon, os sete Generais Marinas. E cada um daqueles personagens tinha um arco dramático próprio. Eles nunca eram apenas obstáculos. Você conhecia suas histórias, seus conflitos e suas motivações. O Kurumada nos convidava a praticar a empatia. Você entendia aqueles personagens. Talvez não concordasse com suas escolhas, mas compreendia seus motivos.

Eu não queria escrever apenas sete batalhas antes do encontro final com o Carbúnculo. Queria que cada desafio fosse como um episódio completo. Que o leitor passasse um tempo conhecendo aqueles personagens, entendendo suas dores, seus conflitos e suas razões antes de seguir viagem.

Só faltava encontrar a estrutura que justificasse tudo isso dentro do folclore brasileiro. É aí que entra Simões Lopes Neto. Em seu conto A Salamanca do Jarau, quem tenta chegar até a Teiniaguá recebe uma espécie de maldição. Antes de encontrá-la, precisa atravessar sete desafios representados por sete charadas. Na hora pensei: É isso!
Peguei cada uma dessas charadas e comecei a procurar correspondentes dentro do folclore brasileiro. Personagens que pudessem ocupar o lugar desses “guardiões” e transformar cada desafio em uma história completa.
A segunda charada fala de “jaguares e pumas furiosos”. Comecei então a procurar quem poderia representar esse desafio.
Nosso folclore está cheio de lendas envolvendo onças. Existe a Onça-Maneta, a Onça-Boi, a Onça de Sete Cores, Onça da Mão Torta e muitas outras. Mas um personagem chamou minha atenção imediatamente. Makunaima, o pai das onças.
Nas tradições indígenas dos povos Taurepang, Arekuna e Macuxi, da região do Monte Roraima, Makunaima era o guardião da árvore de todos os frutos. Nenhum ser humano podia tocar nela. Enganado por Anhagá-Pitã, ele acaba perdendo essa árvore. Diz a tradição que, até hoje, quem sobe o Monte Roraima consegue ouvir no vento, o seu choro lamentando essa perda. Em algumas versões se dizia que a fúria de Makunaima foi tamanha com a perda da árvore que essa fúria se materializou, dando origem às onças. Uau! Era exatamente o personagem que eu procurava.

Além disso, quase toda grande saga de Cavaleiros do Zodíaco tem aquele guerreiro gigantesco que parece uma parede instransponível dentro da jornada.
Seja o Cassius em disputa com o Seiya pela armadura de Pégaso, ou o Thor de Phecda na saga de Asgard. Sempre havia um grandalhão para barrar o caminho deles. Porém, um deles me chamava bastante atenção. Aldebaran de Touro. Um dos doze cavaleiros de ouro e que, curiosamente é um cavaleiro brasileiro.

Em Missão Carbúnculo, Makunaima ocupa o segundo dos sete desafios, assim como Aldebaran ocupa a segunda casa do Santuário. Ambos representam o mesmo momento da jornada. Depois deles, o leitor entende que a aventura mudou completamente de nível.

Existe ainda uma história muito bonita por trás dessa escolha. A maior parte das pessoas conhece Macunaíma, de Mário de Andrade, mas pouca gente sabe que ele nasceu inspirado nesse personagem muito mais antigo das tradições indígenas.
Quando escrevi Missão Carbúnculo, fui beber diretamente nessa fonte e, anos depois do lançamento do livro, vivi uma coincidência que me deixou muito feliz. Descobri que a casa de Mário de Andrade, hoje transformada em museu, tinha uma experiência inteira dedicada justamente às origens indígenas de Makunaima.
Com óculos de realidade virtual é possível chegar aos pés do Monte Roraima, onde um indígena lhe pede para devolver o amuleto muiraquitã à entidade Makunaima que lhe aguarda no topo do monte. E o encontro com Makunaima é especial.
Foi uma daquelas raras ocasiões em que a pesquisa que fiz para escrever um livro encontrou, anos depois, pessoas trabalhando exatamente para preservar a mesma memória. Se você mora em São Paulo, recomendo muito a visita à Casa Mário de Andrade. Vale a pena.

Algumas referências:

Cavaleiros do Zodíaco - Mangá Final Edition
A versão definitiva do mangá que deu origem ao anime exibido na Rede Manchete. Revisada por Masami Kurumada, reúne a história clássica com artes atualizadas, novos capítulos e materiais que expandem o universo de Cavaleiros do Zodíaco.
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A Salamanca do Jarau
O conto que inspirou a estrutura de Missão Carbúnculo. É nele que nasce a lenda do Carbúnculo e seus sete desafios.
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3. Máscara da Morte de Câncer e a Dança dos Esqueletos
A terceira charada que trouxe de A Salamanca do Jarau é a "dança dos esqueletos". Assim que li esse trecho, uma imagem apareceu imediatamente na minha cabeça: a Casa de Câncer.
O Máscara da Morte, guardião da casa de Câncer é um personagem marcante de Cavaleiros do Zodíaco. Há toda uma atmosfera construída ao redor dele. A casa é coberta, do chão ao teto, pelos rostos de suas vítimas. Além disso, seu golpe transporta os adversários para Yomotsu Hirasaka, a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos. É um cavaleiro que exala morte o tempo inteiro.

Foi então que encontrei um personagem pouco conhecido do nosso folclore chamado Isquelê. Um esqueleto que permanece inerte até que uma vela seja acesa sobre sua cabeça. Quando a chama se acende, ele desperta e volta a caminhar. Achei essa imagem fantástica.
No livro, a Moura (inspirada na Moura Torta) utiliza essa magia das velas para reanimar os esqueletos espalhados pela caverna. De repente, aquele lugar deixa de ser apenas um cenário e se transforma em um território onde a própria morte parece estar assustadoramente viva.

Mas essa não foi a única influência escondida nesse capítulo. Existe uma sequência clássica do filme Jasão e os Argonautas que me acompanha desde criança. Nela, os heróis enfrentam um exército de esqueletos animados quadro a quadro pelo mestre Ray Harryhausen. Hoje estamos acostumados com efeitos digitais, mas naquela época tudo era feito em stop motion, fotografando cada pequeno movimento manualmente. É uma das cenas mais importantes da história dos efeitos especiais e continua impressionante até hoje.

Curiosamente, Harryhausen acabou me influenciando em outro livro também. Nesse mesmo filme, a gigantesca estátua de Talos ganha vida para enfrentar os heróis. Na mitologia grega, ele é considerado o primeiro autômato, criado por Hefesto para proteger Creta.
Anos depois, em Vórtices, resolvi trazer Talos de volta sob uma nova perspectiva. Em vez de um gigante de bronze, ele se torna a primeira Inteligência Artificial a desenvolver uma verdadeira intuição. É a minha forma de revisitar um dos mitos que mais me fascinavam desde criança.
Voltando a Cavaleiros do Zodíaco, existe ainda outra lembrança que ficou comigo. Antes mesmo das Doze Casas, Seiya e Shiryu atravessam o Cemitério das Armaduras para chegar até Mu de Áries.

Pelo caminho, encontram esqueletos de antigos guerreiros que morreram tentando completar aquela jornada e agora atacam quem ousa passar por ali. Aquela sequência também ficou guardada na minha memória e certamente encontrou um lugar dentro desse terceiro desafio.
Algumas referências:

Cavaleiros do Zodíaco - Mangá Next Dimension
A aguardada continuação oficial da Saga de Hades. Masami Kurumada apresenta uma nova Guerra Santa, revela o lendário 13º Cavaleiro de Ouro de Serpentário e dá sequência à história clássica de Cavaleiros do Zodíaco.
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A Salamanca do Jarau - Em Quadrinhos
Versão em quadrinhos do conto que inspirou a estrutura de Missão Carbúnculo. É nele que nasce a lenda do Carbúnculo e seus sete desafios.
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4. Shaka de Virgem: o homem
mais próximo de deus
Se existe um momento em que Missão Carbúnculo muda completamente de tom, é durante a quarta charada que trouxe de A Salamanca do Jarau: “o jogo das línguas de fogo e das águas ferventes”.
Até esse ponto da história, os heróis enfrentaram criaturas extremamente poderosas. Só que, a partir dali, passam a enfrentar figuras que representam algo muito maior. Quase divindades. Foi justamente isso que me lembrou um dos personagens mais fascinantes de Cavaleiros do Zodíaco. Shaka de Virgem. Dentro do universo criado por Masami Kurumada, Shaka é conhecido como o homem mais próximo de deus.

Seu poder é tão extraordinário que os próprios Cavaleiros de Ouro o enxergam como alguém que transcendeu a condição humana. Sua construção mistura budismo, filosofia oriental e espiritualidade, tornando-o uma figura muito maior do que apenas um guerreiro. Antes mesmo da luta começar, todos sabem que enfrentá-lo pode significar o fim da jornada. Era exatamente essa sensação que eu queria provocar.

A obra de Simões Lopes Neto apresenta uma figura ligada ao imaginário popular: o Anhagá-Pitã. Enquanto pesquisava o folclore brasileiro, encontrei outro personagem que ocupava esse mesmo lugar dentro das histórias contadas pelo povo. O Canhoto. Assim como acontece com o diabo, ele recebe inúmeros nomes diferentes pelo Brasil: Cramulhão, Tinhoso, Capeta, Coisa-Ruim e tantos outros.
Mas é importante deixar claro que o Canhoto do folclore não pertence exatamente ao universo religioso. Ele nasce das histórias contadas nas fazendas, nos sítios, ao redor da fogueira. Daquele folclore oral que vai ganhando novas formas conforme passa de geração em geração. É muito mais próximo da figura que aparece em histórias como o filme brasileiro O Homem que Desafiou o Diabo, do que de uma representação teológica do cristianismo. É um personagem do imaginário popular brasileiro.

Segundo os ditos populares, ele costuma aparecer nas festas muito bem vestido. Elegante. Bonito. Dança a noite inteira com as pessoas sem despertar qualquer suspeita, até que alguém olha para os seus pés. Da cintura para baixo, ele possui pernas e pés de pato. É nesse instante que todos percebem que passaram a noite inteira dançando com o próprio Canhoto.
O nome também guarda uma curiosidade histórica. Durante muito tempo, acreditava-se que pessoas canhotas tinham alguma ligação com o mal. Muitas crianças eram obrigadas a escrever com a mão direita para abandonar esse suposto "desvio". Felizmente, esse tipo de pensamento ficou para trás.

Mas o que mais me interessava era outra característica. O Canhoto é conhecido como o pai das mentiras, tal qual Loki na mitologia nórdica é associado ao engano e à astúcia. E, curiosamente, é o único personagem de Missão Carbúnculo que nunca mente.
Essa foi uma das partes de que mais gostei de escrever. Desde o momento em que imaginei essa história, sabia que queria colocar frente a frente os dois maiores mentirosos do nosso folclore. De um lado, o Canhoto. Do outro, Pedro Malasartes. Os dois passam praticamente o capítulo inteiro tentando enganar um ao outro. Blefam. Escondem informações. Testam a inteligência do adversário. No fim, quem acaba enganado é o próprio leitor. Até hoje, esse continua sendo um dos capítulos de que mais me orgulho de ter escrito.

Mas esse não é o único encontro dos heróis com uma figura quase divina. Logo depois surge Rudá. Nas tradições indígenas, Rudá é o deus do amor. Assim como Atena representa a justiça, Hades governa o mundo dos mortos e Poseidon simboliza os mares, Rudá representa o amor. Sempre gostei dessa ideia de personagens que deixam de ser apenas indivíduos e passam a representar um conceito maior.
Só que, em Missão Carbúnculo, as divindades refletem o estado do mundo em que vivem. Rudá já não aparece como o indígena descrito nas antigas lendas. Ele surge magro. Doente. De pele clara. Quase europeu. Isso não aconteceu por acaso. Ao longo da nossa história, os povos indígenas tiveram suas terras invadidas, suas crenças perseguidas, sua cultura apagada e, muitas vezes, substituída pela visão de mundo do colonizador. Quis imaginar que esse processo também tivesse deixado marcas nas próprias lendas.

Por isso, o Rudá de Missão Carbúnculo parece ter sido roubado de si mesmo. Sua aparência já não corresponde à sua origem. É como se a colonização também tivesse alcançado o deus do amor. E isso torna sua presença ainda mais triste. Ele representa o amor que existe no mundo hoje. Um amor cansado, ferido e adoentado. Enfrentá-lo é lidar com aquilo em que nós transformamos esse sentimento.

Talvez seja por isso que Shaka sempre tenha feito tanto sentido para mim. Ele representava algo maior. Assim como o Canhoto representa a mentira e Rudá representa o amor. Missão Carbúnculo transforma essas personagens em símbolos. São metáforas da condição humana. No fundo, cada uma delas reflete uma parte de nós mesmos.
Algumas referências:

Cavaleiros do Zodíaco - Mangá The Lost Canvas
A aclamada Guerra Santa anterior aos acontecimentos da série clássica. Com arte de Shiori Teshirogi e supervisão de Masami Kurumada, apresenta novos Cavaleiros de Ouro e uma das histórias mais emocionantes e elogiadas de todo o universo de Cavaleiros do Zodíaco.
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Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro
Um dos livros que mais consultei durante a pesquisa de Missão Carbúnculo. Januária Cristina Alves reúne dezenas de personagens do folclore brasileiro em uma obra fundamental para quem deseja mergulhar na riqueza das nossas lendas e tradições.
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5. Irmãos que lutam entre si: uma verdadeira tragédia grega

A quinta charada é a "cascavel amaldiçoada". Mas, em Missão Carbúnculo, ela acabou se transformando em algo muito maior do que um simples desafio. Ela representa o momento em que o verdadeiro perigo deixa de vir de fora e passa a surgir dentro do próprio grupo.
Maria Caninana é uma das guerreiras mais formidáveis que já escrevi em todo o universo de As Aventuras de Tibor Lobato. Corajosa, feroz e praticamente imbatível. De certa forma, ela também deve muito à personagem Grimalkin, da série As Aventuras do Caça-Feitiço, de Joseph Delaney, um autor que também influencia profundamente a minha escrita.

Assim como a cobra que lhe dá nome, Maria Caninana é extremamente rápida e agressiva. Porém, caninana é uma cobra sem veneno e Maria Caninana nunca aceitou isso. Ela sempre desejou algo mais. Mais poder. A possibilidade de se tornar ainda mais perigosa. E é justamente esse desejo que acaba desencadeando uma tragédia.
Depois do encontro com o Canhoto, alguma coisa desperta dentro dela. E ela se volta contra aqueles que sempre estiveram ao seu lado. Quando escrevi essa sequência, lembrei imediatamente de Saga de Gêmeos.

Durante boa parte de Cavaleiros do Zodíaco, Saga é visto como um líder justo, respeitado e admirado por todos. Aos poucos, descobrimos que existe outra personalidade crescendo dentro dele. Quando essa força assume completamente o controle, ele deixa de ser o grande protetor do Santuário para se tornar justamente a maior ameaça aos Cavaleiros.
Sempre achei essa ideia fascinante. Não apenas porque cria um grande vilão, mas porque mostra que, às vezes, o maior inimigo desperta dentro de alguém que admiramos.

Curiosamente, o próprio Saga também possui um irmão gêmeo: Kanon. É ele quem manipula os acontecimentos da Saga de Poseidon e coloca Atena e seus cavaleiros diante de mais uma guerra. Percebi que Kurumada gostava de explorar tanto a dualidade das pessoas quanto a relação entre irmãos, porque esses laços tornam qualquer conflito muito mais doloroso.
Logo no começo da série, Ikki de Fênix surge como um dos grandes vilões. Enquanto todos enxergam um inimigo, Shun continua vendo apenas o próprio irmão. Lutar contra Ikki nunca foi apenas uma batalha. Era uma tragédia para Shun. Mais tarde, na Saga de Hades, a situação se inverte. É Hades quem desperta dentro do corpo de Shun, obrigando Ikki a enfrentar o próprio irmão para tentar salvá-lo.


Existe ainda outra variação dessa mesma ideia. Em um dos filmes, Hyoga de Cisne assume a identidade de Midgard e passa a lutar contra seus antigos companheiros. É Shiryu quem precisa enfrentá-lo, carregando o peso de lutar contra um amigo.
Mas talvez nenhuma dessas histórias tenha me marcado tanto quanto a dos irmãos Shido de Mizar e Bado de Alcor, na Saga de Asgard. Os dois são irmãos gêmeos. Segundo a tradição de Asgard, apenas um deles poderia ser criado pela família. O outro foi abandonado ainda bebê para morrer na neve. Bado sobrevive, mas cresce vivendo como a sombra do irmão. Alimenta inveja, ressentimento e o desejo de ocupar o lugar que acreditava ser seu. No fundo, porém, tudo o que realmente queria era ser reconhecido e aceito.

Sempre achei essa história profundamente triste (chorei quando assisti a primeira vez). E ela acabou encontrando espaço dentro de Missão Carbúnculo.
Maria Caninana e Cobra Honorato também são irmãos gêmeos. Ela é uma guerreira extraordinária. Mas seu desejo de possuir um poder que não lhe pertence acaba abrindo caminho para sua queda. Quem precisa enfrentá-la é justamente Cobra Honorato, o único capaz de fazer frente a ela.

O confronto entre os dois deixa de ser apenas uma luta. Transforma-se em uma tragédia. Porque nenhum dos dois gostaria que aquele momento existisse, incluindo o leitor, que tem vontade de pular dentro do livro e evitar que o pior aconteça.
Algumas batalhas não acontecem porque duas pessoas se odeiam. Acontecem porque a vida, às vezes, coloca pessoas que se amam em lados opostos. Talvez seja justamente por isso que Cavaleiros do Zodíaco continue tão atual. Suas batalhas sempre falaram sobre o preço que pagamos por aqueles que amamos.

Como escritor, acredito que esse seja um dos maiores poderes da fantasia. Conforme a gente cresce, vai enxergando o mundo com menos cores. A realidade parece cada vez mais cinza. A fantasia não existe para nos afastar dela. Existe para nos permitir explorá-la com mais cores.
Dentro da fantasia, você pode olhar para esse mundo, explorá-lo e exercitar o seu senso crítico. Pode experimentar possibilidades, refletir sobre escolhas e enxergar suas consequências. Quando volta para a sua realidade, já não tem tanto medo de encarar esse mundo cinza. Muito pelo contrário. Você já o explorou com todas as cores da fantasia. E agora pode, inclusive, começar a pintá-lo com as suas próprias cores.
Algumas referências:

Cavaleiros do Zodíaco - Mangá Saintia Shô
Um emocionante spin-off protagonizado pelas Saintias, guerreiras que protegem Atena em missões secretas. Com novas personagens, grandes batalhas e participações dos Cavaleiros de Bronze e de Ouro, expande o universo clássico sob uma nova perspectiva.
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As Aventuras do Caça-Feitiço
Uma das séries que mais influenciaram a minha escrita. Ambientada em um mundo sombrio inspirado no folclore europeu, apresenta personagens inesquecíveis, como a lendária Grimalkin, e uma mitologia rica que marcou toda uma geração de leitores.
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6. A Flecha de Sagitário e o Arco do Curupira

Símbolos atravessam gerações. E boas histórias também. Ao longo de toda a história de Cavaleiros do Zodíaco, existe uma arma que sempre carrega um significado muito maior do que seu poder: A flecha de Sagitário.

Ela aparece em alguns dos momentos mais decisivos da série. É com ela que Seiya tenta atingir Poseidon. Nos filmes, é sempre a flecha de Sagitário que atravessa o peito dos deuses, carregando a última esperança da humanidade. Na Saga de Hades, a própria armadura de Sagitário participa da destruição do Muro das Lamentações, permitindo que os cavaleiros avancem rumo ao confronto final.
Mais do que uma arma, a flecha sempre simbolizou uma possibilidade. A esperança de que, mesmo diante de um inimigo aparentemente invencível, ainda existia um caminho.
Quando comecei a escrever Missão Carbúnculo, percebi que também precisava de um símbolo assim. E ele já existia no nosso folclore. Tô falando do Curupira. Quem acompanha As Aventuras de Tibor Lobato sabe que o Pai das Matas ocupa um lugar muito especial dentro desse universo. No primeiro livro da série, Tibor e Sátir descobrem que são bisnetos do Curupira. Sua presença atravessa praticamente toda a mitologia construída ao longo dos livros.

Em Missão Carbúnculo, porém, eu queria trazer mais camadas para essa mitologia. Foi então que nasceu o arco do Curupira. Uma arma lendária acompanhada por uma flecha que nunca erra o alvo.
Quando Maria Caninana encontra o arco e a flecha dentro da caverna do Carbúnculo, ela acredita que finalmente possui a única arma capaz de derrotar o grande lagarto. Essas armas deixam de ser apenas um artefato mágico, para representarem a esperança de todos aqueles personagens.
Algumas referências:

Cavaleiros do Zodíaco – Colecionável Aiolos de Sagitário
Monte e exiba um dos personagens mais lendários de Cavaleiros do Zodíaco. Um model kit articulado de Aiolos de Sagitário, com montagem por encaixe, ótimo acabamento e uma peça perfeita para fãs e colecionadores da série.
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O Oitavo Vilarejo - Nova Edição Revista e Ampliada
Conheça o início da jornada de Tibor Lobato nesta edição revista e ampliada, com trechos inéditos que expandem a história original. Uma aventura de fantasia inspirada no folclore brasileiro, onde lendas ganham vida e os mistérios do lendário Oitavo Vilarejo dão origem a todo o universo da série.
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Considerações finais
Essas foram apenas algumas das referências a Cavaleiros do Zodíaco escondidas em Missão Carbúnculo. Mas elas estão longe de ser as únicas. Se você chegou até aqui, talvez já tenha percebido que eu gosto de construir histórias misturando folclore brasileiro, mitologias de diferentes culturas, literatura, cinema, quadrinhos, animes, jogos e muitas experiências que fui acumulando ao longo da vida. Tudo isso acaba encontrando um lugar dentro da narrativa.
E, acredite, ainda ficaram muitas de fora. Por exemplo, o poder de proteção dos Galafuzes, que são os guardiões de Naara, lembra bastante a Muralha de Cristal de Mu de Áries. A batalha final entre Tibor Lobato e Sacireno Pereira, em O Oitavo Vilarejo, também carrega um pouco daquela essência do Seiya: continuar se levantando quando tudo parece perdido.

Se, durante a leitura, você encontrou alguma dessas referências, fico feliz. Se não encontrou, melhor ainda. Porque isso significa que elas cumpriram exatamente o papel que deveriam cumprir: ajudar a construir uma história que se sustenta por si mesma.
O objetivo sempre foi construir um universo com personalidade própria, onde o folclore brasileiro ocupasse o lugar de protagonista e pudesse mostrar toda a riqueza das histórias que existem no nosso país.
Se você gostou deste "Decodificando", deixe um comentário. Quem sabe eu não preparo um Decodificando Missão Carbúnculo #2? Ou talvez um especial mostrando as referências escondidas em As Aventuras de Tibor Lobato, Vórtices ou algum outro livro.
Acho que ainda temos muitas histórias para decodificar.




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